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Ser Dia e Ser Noite – Corporificando a experiência

Escrito por Constância Matos “O corpo ocupa o coração de nosso processo de investigação.” (Danis Bois) Viver e ser vivido, corporificar a experiência e expressar-se a si mesmo. Organizar-se no mundo a partir de um ritmo próprio; um ritmo que possibilite o entendimento do que se é, de onde está e onde se quer chegar. Esta edição do caderno Corporal é um convite para pensarmos o papel do corpo e a sua relação com as nossas experiências e a aprendizagem, sob a luz dos estudos somáticos de Stanley keleman. Em, “O Corpo diz sua mente”, seu primeiro livro conceitual, Keleman parte de dois eventos bem marcados em um dia comum do indivíduo para falar sobre experiência: O “levantar-se pela manhã”, e “dormir à noite”. Ele chama de “processo de organização” o modo como nós nos estruturamos somaticamente para “ser dia”, “estar de pé”, “vestir-se da excitação”, excitação que propulsiona o aprender, compartilhar e realizar coisas; e como ser noite, pausar, dar-se o descanso, se colocar na horizontal para que o corpo assimile todas as informações do dia vivido. A nossa verticalidade dá início ao processo que conhecemos como consciência humana, humanidade..[…] Ficamos de pé e aumentamos o nosso envolvimento. Quando ficamos sobre os nossos pés, focamos e exprimimos a nós mesmos. Ficar de pé muda a nossa ênfase da experiência à expressão. A experiência quando está presente na expressão, não requer foco ou risco. A experiência nos preenche e expande. (keleman, 1996, p16). Este padrão rítmico (acordar e dormir), organiza o indivíduo no mundo como um corpo sensível/formativo, que corrobora para que cada ser viva em um ajuste contínuo, a fim de interagir com o outro, com o ambiente e também para ser ele mesmo. Um corpo em um contínuo processo formativo, um corpo vivo que estabelece relações e que se molda a partir da consciência. Reconheço-me como corpo no mundo, “existo” a partir da minha história de vida pessoal, história que forma os meus gestos, e a minha expressão corporal, através da qual afirmo a minha existência. Estamos o tempo todo buscando preencher e ser preenchidos, o levantar-se da cama e sair para realizar as diversas tarefas de um dia oportuniza a minha conexão com o que está fora de mim e com o que está dentro, a clareza destes dois lugares oportunizados pela experiência me dá condições de re-padronizar o comportamento e também de adquirir novas aprendizagens. Keleman chama nossa atenção para um lugar muito importante no processo da autoformação e da aprendizagem: o reconhecimento da dimensão do tempo. De acordo com Keleman os conflitos de aprendizagem surgem quando não reconhecemos o nosso tempo de aprendizagem, quando impomos a velocidade de outra pessoa à nossa velocidade e quando não consigo construir somaticamente o tempo (não permitir que as coisas finalizem), não há permissão de se passar de uma coisa para outra. Quando nos sensibilizamos para o tempo que alguém leva para fazer alguma coisa então podemos mudar a maneira pela qual nos relacionamos. Podemos criar um tempo compartilhado, retirar-nos para nosso próprio tempo e, quando necessário, atuar sobre o tempo de outras pessoas. (Keleman, 1994, p.44) Uma vez estabelecida a noção do tempo para as coisas, permitimos que a experiência aconteça por si mesma, saímos da posição daquele que inspeciona, do que julga e critica. Ao deixarmos esse lugar de observadores/julgadores de processos, entramos no lugar disponível para a aprendizagem, o lugar da empatia, da sensibilidade ao tempo de cada um. Esse é o lugar que a abordagem somática do Inner Balance quer trazer para nós instrutores/facilitadores do movimento e para nossos alunos/aprendizes. Um lugar onde um ser é afetado pelo outro. Um lugar não hierárquico, um lugar sensível ao ritmo da corporificação da aprendizagem, reorganizando a nós mesmos e aquilo que nos cerca. Um lugar onde juntos aprendemos a “ser dia” e a “ser noite”. Bibliografia consultada KELEMAN Stanley. Realidade Somática. Experiência corporal e verdade emocional. Summus editorial, Brasil 1994 _ O corpo diz sua mente. 2a ed. Summus editorial, Brasil 1996 _ Corporificando a experiência. Construindo uma vida pessoal. 3ª edição. Summus editorial, Brasil.

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Sujeito vivente e experiência

Escrito por Constância Matos “ Diz-se que as catedrais são livros de pedra. Nós somos livros de carne. Vivemos o que somos”.                                                                                               Evaristo Eduardo de Miranda Ser sujeito vivente é estar o tempo todo em troca, vivendo e trocando experiências. Trocamos com outro, com o mundo e nesta troca afetamos e somos afetados. Para a escrita desta edição, por exemplo, fui afetada por uma troca sensível com o Inner Guilherme e a Fernanda Ricci, uma amiga, mestranda em Educação Somática pela Universidade Federal da Bahia e ambos me fizeram lembrar de um texto do Jorge Larrosa Bondía, Notas sobre a experiência e o saber da experiência, texto que eu havia lido há alguns anos atrás em uma disciplina de Expressão Corporal no Curso de Bacharel em Artes Cênicas.  Ao reler o texto de Bondía não tive dúvidas em trazê-lo para construção desta reflexão sobre a EXPERIÊNCIA¹. Texto lindo, recomendado para todos os que pretendem e se interessam em levar para a sala de aula um olhar não didatizado sobre o tema.   Em Notas sobre a experiência e o saber da experiência, Bondía questiona se realmente experienciamos as coisas em uma era, onde estamos sobrecarregados de informações.  O tempo todo estamos fazendo coisas, mas será que estamos de fato nos permitindo experencia-las? Caso esteja lendo este texto algumas horas após ter começado seu dia, pare e pense nos acontecimentos do dia até o presente momento. Convido você a pausar e pensar sobre o que realmente conseguiu vivenciar no corpo como experiência, e o quanto de informações conseguiu processar de tudo que você recebeu e deu de si até agora. Você pode ter feito uma prática corporal, lido um jornal, enviado e respondido e-mails, ouvido um podcast, ministrado uma aula, assistido um vídeo de um curso on-line, passeado com o pet ou levado as crianças na escola. Você já parou para pensar que em todas estas atividades listadas, o corpo está passível de experiência se assim permitirmos.  E que cada um de nós aqui nesta leitura podemos ter feito as mesmas coisas listadas acima, mas cada um as “encarnou” de uma maneira, tornando o “passar por”, experienciar as coisas algo tão singular.   Segundo Bondía, permitir que o corpo viva genuinamente as experiências talvez seja um dos maiores desafios dos indivíduos da sociedade contemporânea. Bondía credita a escassez da experiência ao excesso de informações que recebemos diariamente, ao pouco tempo que dispomos para vivenciá-las, a obrigatoriedade de opinarmos, dominarmos e/ou pelo menos alimentar a ilusão de dominar todos os assuntos que estão em voga. Para o autor este modo de estar no mundo corrobora para nos distanciar da experiência. Vivemos tão ocupados que nos sobra pouco tempo para viver as experiências.   Aproximando a fala de Bondía com o nosso mundo, o mundo do Movimento, chamo a atenção para algo rotineiro; as ofertas de atualizações profissionais. Nos últimos seis anos os achados sobre fáscias e tensegridade fizeram explodir as ofertas de cursos e atualizações, sempre com o apelo de nos preparar e fazer-nos profissionais diferenciados no mercado. Assentimos ao apelo e empolgados compramos cursos, investimos em materiais e apostilas, recebemos uma batelada de informações e não sabendo como colocar em prática as informações recebidas, as guardamos em alguma gaveta da memória e nunca mais a abrimos.  E o que supostamente iria transformar nosso modo de dar aula e a vida dos nossos alunos transforma-se em mais uma certificação para pendurarmos na parede ou guardarmos em outra gaveta, a do armário. Quem nunca se viu nesta situação? Veja bem caros colegas/instrutores, aclaro que não estamos indo de encontro à necessidade de nos atualizarmos e tampouco padronizar comportamentos de cada sujeito, o desejo é compartilhar com vocês, esta questão importantíssima que nos traz Bondía, o olhar sobre a experiência em tempos onde acumulamos informações e não vivenciamos a experiência.  Se nós, propositores do movimento, estamos mergulhados em um ambiente não propício a experiência, como gerar para o outro o que não temos conosco?  Se em razão do excesso de informações que recebo, não processo e não tenho tempo para imprimir na minha carne o que recebi, não houve aprendizado porque EXPERIÊNCIA é tocar e ser tocado, ou seja, não está separada da vida. Se não sou tocado não houve aprendizado, e ausência de aprendizado é igual a não experiência, conforme diz o autor escolhido para tecer este diálogo com o leitor. A pressa de devorarmos as informações nos anestesiou a ponto de adotarmos comportamentos que embotam a experiência. Dispersos nas ações mecanizadas do cotidiano, não percebemos que estamos atolados, presos a um estilo de vida, que nos faz correr de um lado para o outro, ler vários livros e não os processar, fazer cursos e não os colocar em prática, estar com o outro e não estar presente. E assim, neste vai e vém suprimimos o  espaço criativo, lugar fundamental  quando se pensa a EXPERIÊNCIA.  […]Recebemos tantas informações que quase se torna impossível distinguir o saber no sentido do “estar informado sobre um determinado assunto” do saber no sentido de conhecimento, conhecimento derivado da experiência, do passar por algo, do tocar e ser tocado.[…] a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.  Temos sede de saber, não

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Autonomia e acessórios

Escrito por Constância Matos “Uma das propriedades mais imediatas do ser vivo é sua autonomia”. Maturana  Experimente digitar a palavra “Autonomia” em um buscador da internet e observe quantos conceitos saltarão na sua tela. Você vai perceber que a palavra “Autonomia” tem conceito muito amplo e que pode ser facilmente confundida com a palavra liberdade e com outras crenças como por exemplo: ser dono da própria vida. Não é o objetivo deste texto discutir e explicar cada significado encontrado e sim amalgamar os conceitos de “Autonomia” que nos interessam com o pensamento Inner Balance acerca do conhecimento e apropriação do próprio corpo, a fim de dar continuidade a nossa conversa sobre “o toque”, a partir dos acessórios desenvolvidos pelo método. Semanticamente “Autonomia” deriva do grego, formada pelo adjetivo “auto” = “o mesmo”, “ele mesmo” e “por si mesmo” – e pela palavra “nomos” = “compartilhamento”, neste sentido a  palavra “Autonomia” significa propriamente a competência humana em “dar-se suas próprias leis. A filosofia compreende a “Autonomia” como a condição de uma pessoa determinar por si mesma a lei à qual se submeter, o indivíduo escolhe suas normas e valores, faz seus projetos, toma decisões e age em consequência dessas escolhas e na  psicologia a “Autonomia” é entendida como a preservação da integridade do eu.   O Inner Balance preza e estimula a“Autonomia” instrutor/facilitador do método, quanto do aluno/praticante ambos são incentivados a apropriarem-se dos movimentos do próprio corpo a partir do repertório corporal que possuem. Aprecia-se a conquista da corporeidade¹, do autoconhecimento, pois acredita-se que a potência da expressão pelo movimento procede destes lugares. Interessa ao método o lugar da investigação, “é preciso pensar o instrutor como bússola”, lembra  Bruna Petito aos instrutores/facilitadores da rede (sempre em contínua formação), da importância de conhecer seu próprio processo, seu lugar no mundo, para realmente habitar seu corpo e construir um lugar de abertura para a troca verdadeira com o aluno.   É sabido que o toque possibilita aos indivíduos que estão no processo de redescobrir a organização de seus corpos interna e espacialmente, a acessarem lugares de investigação que talvez não conseguissem sem este direcionamento pontual.  A mediação do toque contata a pessoa em sua globalidade corporal e psíquica, cria condições de uma reciprocidade atuante entre o Instrutor/facilitador e aluno/praticante, o que requer uma qualidade de presença dos envolvidos no trabalho corporal.(Danis Bois, p. 205) A fim de provocar o despertar da corporeidade, da “Autonomia” e pensando também na possibilidade de proporcionar um acolhimento e um estar próximo do aluno, que o  primeiro acessório do Inner Balance foi desenvolvido.  Bolinhas  Balance Balls As balance balls, as nossas amadas bolinhas tem uma densidade firme, proporcionando o contato da camada mais profunda da pele, trabalhando desta forma a soltura dos tecidos do corpo em movimento. Uma curiosidade sobre as é que elas foram pensadas enquanto a Idealizadora do método se encontrava na sua viagem de lua de mel. Os alunos ligavam dizendo que gostariam que a mão dela tivesse ficado com eles, pois estavam sentindo muita falta e como ela poderia ajudá-los a sanar as dores mesmo estando de longe. Assim as balances ganharam vida e a densidade do cotovelo da Bruna Petito. Entre o desenvolvimento e o lançamento decorreu um ano de pesquisa, até chegar na densidade e tamanho ideal para o encaixe nas articulações; hoje são mais de dez mil bolinhas espalhadas pelo mundo.  Aromaterapia Foi desenvolvida em parceria com a Chris Penna, aromaterapeuta que acompanha a Bruna Petito há quinze anos, que juntas desenvolveram o spray terapêutico especialmente para o Inner Balance. O objetivo do spray é criar uma atmosfera de conforto e despertar boas sensações a partir do sentido olfativo proporcionando ao aluno/praticante bem-estar físico e mental. É utilizada no início e no momento da prática com a balance ball. Sense   O sense é uma parceria do Inner Balance com o Stretch-eze®. O Sense tem uma composição super especial de spandex que não se deforma com o uso e que tem suas fibras organizadas de maneira a facilitar o seu deslizamento conforme o estímulo recebido, facilitando desta maneira os vários direcionamentos do trabalho fascial.  A sua dupla costura permite a expansão do tecido eliminando o risco de qualquer acidente durante o seu uso. O tecido do Sense é lavável e não absorve odores. O sense é um afago no corpo em razão do seu design acolhedor. Tem um módulo do método inteiramente dedicado ao estudo do acessório. Fluid Balance Estimula a propriocepção, sensibiliza e promove aconchego em razão do formato esférico e do seu fluido. A fluid auxilia a conquistar espaços e aliviar tensões na região sacro-ilíaca.  Imagens Intuitivas Surgiram a partir do momento em que Bruna Petito iniciou a sistematização do Método. O Inner  Rodrigo Rivera, artista e Fisioterapeuta sensível que está ao lado da Bruna Petito desde o início da criação do método é o responsável pelas lindas imagens, que hoje são referência do Inner Balance. Os acessórios desenvolvidos através de muito estudo e pesquisa auxiliam os alunos a se abrirem para as sensações internas e exteriorizá-las a partir do gesto restabelecendo a  relação com o próprio corpo e o reencontro com a expressividade do mesmo.    Bibliografia e obras consultadas Livros  BOIS Danis. Sujeito sensível e renovação do eu – As contribuições da Fasciaterapia e da Somato-psicopedagogia. São Paulo: Centro Universitário São Camilo e Paulos editorial, 2008. MATURANA R. Humberto; VARELA; J. Francisco. A árvore do conhecimento – as bases biológicas da compreensão humana. Palas Athena editora,2019.   Artigos: Adriana Wagner; Claudete Bonatto Reichert – Considerações sobre a autonomia na contemporaneidade www.revispsi.uerj.br/v7n3/artigos/html/v7n3a04.htm   René Armand Dentz – Corporeidade e subjetividade em Merleau-Ponty  https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php  

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A voz: uma extensão do Corpo

Escrito por Constância Matos Como facilitador/educador do movimento, você observa sua voz?  Em algum momento parou para prestar atenção ao som e ao desenho dela no espaço? Não me refiro a voz que você acha que poderia ter, mas a sua voz com espaço para expressividade, como ferramenta para tocar o seu aluno. Como sua voz chega ao aluno durante uma sessão de trabalho corporal? Como você tem cuidado de sua voz, esta que é também um de seus instrumentos de trabalho? Quais os cuidados que podemos ter a fim de que nossa voz falada seja catalisadora de uma agradável experiência corpo/movimento para quem conduzimos no exercício do autoconhecimento, a partir do mover o corpo no espaço/mundo? Será que como facilitadores/educadores do movimento estamos cientes da importância da nossa voz falada; será que temos consciência de que nossa voz falada não está separada da expressividade?  Esta edição do nosso caderno corporal convida você a pensar a voz como uma extensão do corpo. A voz faz parte da nossa identidade e sabemos que existem outras possibilidades de nos comunicarmos como por exemplo: pelo olhar, pelos gestos, pela expressão corporal, pela expressão facial, mas a nossa voz é responsável por uma porcentagem muito grande das informações que trocamos com nossos interlocutores. Alguns estudiosos defendem o pensamento de que a nossa fala se desenvolveu para preservação da nossa espécie. (Cohen, 2015 p. 173) A partir da  nossa voz é possível notar disponibilidade, segurança, flexibilidade, atenção, cuidado, estado de humor ou seja, os nossos sentimentos e emoções são expressos em nossa voz, por esta razão começaremos o nosso passeio pelas estruturas básicas do mecanismo vocal pela faringe, que segundo a criadora do método Body Mind Centering, Bonnie Cohen, é o continuum da expressão e comunicação; a Educadora Somática refere-se a faringe como o nosso “self intuitivo”, como um instrumento da expressão humana.  A faringe é o nosso instrumento de expressão – de comunicação e relacionamento entre nós e os outros, do nosso self intuitivo e inteligente mais profundo com o conhecimento que está fora da nossa experiência. Cada um de nós tende a enfatizar diferentes humores ou modos de comunicação, tendo acesso automático a alguns ou dificuldade ou desconforto para expressar outros. Algumas pessoas se sentem mais confortáveis na faringe inferior, que é mais guiada pela percepção cinestésica interior. Outras são mais expressivas na faringe média, que é mais governada pela percepção auditiva externa e pela interação social. Outras ainda focalizam sua expressão predominantemente na faringe superior, com atividade mais visual e intelectual. A extensão total de tons expressos se aprofundará quando acentuarmos a laringe inferior e subirá quando focalizarmos mais alto na faringe. (Cohen, 2015 p.170) Além de estar relacionada à expressividade, a faringe é responsável pela produção e escala das vogais e também pela ressonância. Faz parte do sistema digestório/respiratório e é composta por três cavidades: a nasofaringe, que está localizada atrás do nariz, a orofaringe, localizada atrás da boca na parte de trás da garganta e a laringofaringe, localizada atrás da base da língua, acima da laringe e do esôfago. A Laringe é um componente do sistema respiratório vocal e é responsável pela altura e intensidade da voz, mas a sua função principal está relacionada à proteção das vias inferiores, ela se encarrega de que nenhum líquido ou alimento seja aspirado e chegue aos nossos pulmões. Se na faringe está localizado o nosso “self intuitivo” é na laringe que damos intensidade à expressividade deste “self”. É nas cavidades da laringe que as vogais são modificadas para dar o tom das nossas emoções. Uma curiosidade da laringe é que ela começa a descer, alongar-se a partir do nascimento e aos seis meses já não é possível para um bebê engolir e respirar ao mesmo tempo. Na vida adulta a laringe se encontra anatomicamente alongada favorecendo a nossa linguagem vocal.  É na laringe que estão situadas as nossas pregas vocais. As pregas vocais também conhecidas como cordas vocais se apresentam como dois lábios horizontais localizados na laringe. A produção da voz acontece graças à passagem do ar que vem dos pulmões durante o ato da expiração. O ar faz as pregas vocais vibrarem produzindo o som. O som produzido nas pregas vocais passa por um “alto-falante” natural formado pela faringe, boca e nariz. Estas estruturas são denominadas cavidades de ressonância. Os sons da fala são articulados na cavidade da boca, através de movimentos da língua, lábios, mandíbula, dentes e palato. Especialistas em trabalhos vocais do campo somático relacionam a boa emissão da voz, ao posicionamento do corpo espacialmente, a uma respiração eficiente, ao apoio do diafragma. Em seus estudos do “soma e voz declamada” o pesquisador e educador somático Frederick Matthias Alexander (1869-955), The Alexander Technique, chama esta organização de “uso consciente do corpo”. Na sua visão, a partir da auto-observação a inteligência corporal que é inata do ser humano, mas na maioria de nós adormecida, é estimulada auxiliando a mente a trabalhar organicamente com o corpo. O estado de auto-observação favorece um despertar corporal, o indivíduo começa a observar tensões e padrões desnecessários, o que proporciona um direcionamento do corpo no espaço favorecendo a qualidade da emissão da voz. O interesse de Alexander pelo estudo da voz/corpo somático, se deu quando ele passou a ter dificuldades para declamar Shakespeare. Alexander era ator e sua voz era o seu instrumento de trabalho, portanto sua carreira estava ameaçada. Procurou por ajuda, mas os especialistas da época não conseguiram ajudá-lo e assim começou o trabalho por si mesmo. Alexander se pôs em frente de um espelho para realizar os ensaios, foi então que descobriu que ao declamar puxava a cabeça para trás e para baixo, apertando a garganta e comprimindo desta forma suas cordas vocais. Descobriu que ao inibir esse padrão, direcionando a cabeça para cima e para frente de maneira que ela descansasse sobre a coluna poderia andar e falar livremente pelo simples equilibrar da sua cabeça. A experiência de Alexander nos mostra o quanto estar cinestesicamente consciente do nosso corpo favorece a

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Percepção, Movimento e Toque

Escrito por Constância Matos “A experiência do movimento e do toque são fundamentais para descobrirmos quem somos e quem é o outro. É como dançamos juntos nesta vida.” – Bonnie Bainbridge Cohen Como estou hoje? Como meu aluno/paciente está hoje? Como toco meu aluno? Como facilitador estou presente e consigo ver as necessidades do meu aluno, ou sem olhar verdadeiramente o indivíduo que está na minha frente começo a fazer intervenções que presumo necessárias para aquele corpo? Cada mecanismo biológico, cada tecido tem um ritmo e uma maneira de se adaptar aos estímulos recebidos do meio, conferindo a cada corpo uma individualidade e uma maneira de sentir e perceber o ambiente, o toque, o movimento. Isto posto é importante que professor/facilitador do movimento e aluno/paciente, construam uma relação de confiança, na qual haja uma sinergia, um diálogo corpóreo onde – o profissional entenda as necessidades de seu aluno – e o aluno descubra as suas possibilidades de movimento. Aqui novamente cabem outras questões: o que posso fazer para que esse diálogo aconteça? Como aproximar este aluno do seu próprio corpo e logo do meu corpo/professor/facilitador? Lembrando que para uma boa relação com o outro e com o espaço, o indivíduo precisa antes reconhecer o lugar que seu corpo ocupa neste espaço. Como podemos ocupar o mesmo espaço para dançarmos juntos? O professor e pesquisador Fernando Bertolucci, criador da metodologia Toque de Tensegridade, nos lembra que todos nós nascemos com a capacidade sensorial de se perceber no mundo e que esta capacidade da consciência faz parte do programa do corpo, porque cérebro e corpo trabalham em sincronicidade. Ele considera que as fáscias são desenhadas pelo movimento, logo o corpo é o próprio movimento e defende que a pandiculação, o espreguiçar, restabelece as dimensões e as relações espaciais da tensegridade do corpo e que isto foi imprescindível para a sobrevivência da espécie humana nos primórdios, já que movimentar o corpo era necessário para não sermos devorados pelos predadores. Já a pesquisadora Bonnie,( BMC Body Mind Centering ), defende que a percepção é o próprio movimento, sendo desenvolvida ainda no útero da mãe. No útero, enquanto o feto se movimenta, ele recebe um feedback tátil imediato de si mesmo e de seu ambiente – as partes do seu corpo se esfregam umas nas outras, contra a parede do útero e contra o líquido amniótico. Enquanto o feto se movimenta, ele empurra os órgãos da mãe, os quais, por sua vez, empurram de volta contra o feto. Quando a mãe se movimenta, há mudanças no líquido e na pressão dos órgãos contra a pele do feto. (Cohen, p. 217) Bonnie fala da necessidade de diferenciarmos Sensação de Percepção; na sua visão, a primeira é o aspecto mais mecânico, envolve o estímulo dos receptores sensoriais e dos nervos sensoriais. Já a percepção para a autora, é como nos relacionamos no âmbito pessoal com as informações que recebemos; seria à maneira como nos relacionamos conosco, com os outros, com a terra, com o universo, ou seja, com o que está à nossa volta. Explica ainda, que todos temos órgãos sensoriais semelhantes, mas as nossas percepções são totalmente únicas. Sentir não é apenas ser passivamente estimulado; perceber não é apenas receber informação de forma passiva; motor não é apenas responder de modo direto à estimulação; há atividade perceptual na atividade motora e atividade motora na recepção de informação e na percepção. O aprendizado é uma abertura de nós mesmos para a experiência da vida. A abertura é um ato motor; a experiência é a interação entre acontecimentos sensoriais e motores. Quando a experiência do movimento está integrada em nossa educação, a percepção de nós mesmos e do mundo muda. (Cohen, p. 219) Em suas investigações com bebês com dificuldades e trauma após o nascimento, ela observou que independente da causa inicial, o toque foi um facilitador para a organização da criança no espaço, para desfazer seus caminhos ineficientes e estabelecer uma base para seu ótimo desenvolvimento. A autora cita também a abertura para a percepção proporcionada pelo Contato Improvisação. Em função do estímulo sensorial e habilidade de resposta ao parceiro, os dançantes tocam e são tocados, se movem e são movidos pelo ambiente, recebem informações e descobrem possibilidades e em contato, habitam o mesmo espaço. Observamos que em determinadas situações ocorre a necessidade do corpo ser tocado, ser direcionado, localizado no espaço. O cuidado que devemos ter é para que este toque não seja um toque pelo toque, mas sim, um toque preciso que realmente oriente/conduza o corpo do nosso aluno no espaço para que desta maneira ele seja conduzido ao lugar proposto. Acredito que podemos considerar que os autores conversam entre si, ambos acreditam que a percepção é algo inerente do ser humano, que corpo e mente não são separados e que estão em experiência com o todo. Em alguns, mais que em outros, essa percepção pode estar mais aguçada em consequência dos estímulos recebidos. Pode ser que o sistema, o mecanismo interno do nosso aluno esteja anestesiado, o que justamente fez com que ele adquirisse padrões impedidores de um movimento fluído e organizado. Cabe a nós, facilitadores/professores compreendermos que esta foi a forma que este indivíduo conseguiu se organizar e se orientar no espaço externo. Cumpre o nosso papel de investigar se essas limitações foram causadas por uma restrição estrutural ou pela inibição do gesto. É um trabalho desafiador e o sucesso dependerá do quanto o nosso corpo/professor está presente e organizado para atender as exigências deste outro corpo que chegou até nós e do nosso respeito para com as questões e individualidades deste corpo/aluno/paciente e do quanto de espaço interno ele disponibilizará para que as mudanças dos padrões aconteçam. Um olhar compreensivo e profissional construirá uma relação de confiança favorecendo a parceria entre facilitador/professor e aluno/paciente. É muito importante que neste diálogo se esclareça que a percepção do corpo é conquistada a partir de uma real escuta e que os resultados dependem do quanto o aluno é partícipe. E neste trabalho não ter

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O processo de cada um – o corpo no espaço/mundo

A tomada de consciência, o habitar o próprio corpo é o primeiro passo para a conquista do bem-estar.  O modo operativo ocidental moderno separou o corpo da mente, do espírito e também da natureza como se uma coisa fosse dissociada da outra, o que contribuiu para nos afastar da saúde integral do corpo. Esta fragmentação nos alienou a ponto de refletir não somente na relação do eu conosco como também na construção das relações com o outro e com o mundo. O momento atual em que vivemos é uma oportunidade de resgatarmos a intimidade com esse corpo e a partir disto evoluirmos em nossos processos individuais e nesta relação com o externo. Leloup em seu livro, O Corpo e seus Símbolos – Uma antropologia essencial -pergunta o quanto estamos disponíveis e abertos para escutarmos nosso corpo e mais: Leloup afirma que podemos não estar inteiros nesta escuta, que uma parte de nós, um membro ou um órgão pode estar fechado ao próprio movimento e que cada indivíduo tem seu tempo e seu processo para esta escuta.  “tudo nos é dado mas nem tudo é recebido, cada um de nós de modo particular e pessoal, tem um espaço de abertura e um espaço de fechamento”. (Lelloup, 2015,  p.17) Segundo o autor, a não abertura de determinada parte do corpo para a tomada de consciência acontece em razão da somatização de acontecimentos tanto na ordem física, psíquica, afetiva ou espiritual.  A temática sobre o despertar corporal, essa tomada de consciência do corpo no mundo abordada acima, é um convite para nós, facilitadores do movimento, a refletir sobre algumas questões fundamentais: o por quê e para que essa tomada da consciência corporal. Como me organizo e reconheço o meu próprio processo “de corpo no mundo”, como isto reflete nas minhas aulas e como posso auxiliar o meu aluno no processo dele? Vamos a primeira das questões, o por quê e para que: qual a real importância de participar a nós mesmos e aos nossos alunos essa autopercepção, essa tomada de consciência do corpo? Pesquisas atuais do campo somático defendem que a autopercepção corporal, a organização interna do corpo aprimora a relação com o espaço externo, contribuindo para que o indivíduo realize movimentos cotidianos com a naturalidade e eficácia devida, ou seja, acontece uma ótima estruturação deste corpo em sua relação com a gravidade. Outra questão observada é a melhora dos relacionamentos. Estando disponíveis para nós mesmos nos sentimos mais estáveis e confiantes e estendemos essa disponibilidade às pessoas com as quais nos relacionamos, uma espécie de maturidade corporal nos põe em um lugar mais confortável para que as possíveis trocas com o outro possam fluir espontaneamente. Como me organizo e reconheço o meu próprio processo “de corpo no mundo”, como isto reflete nas minhas aulas?  Me apoio em Thérèse Bertherat para falar do quão significativo é para o aluno o corpo do professor: “O corpo docente é antes de tudo o corpo de cada professor. O saber que o professor propõe é, certamente, o que ele aprendeu através da sua própria reflexão, mas também, e simultaneamente, através da experiência do seu corpo”. (Bertherat, 2010,p. 141) A autora considera indispensável que sejamos sérios em nossas investigações, na busca de nossa tomada de consciência corporal para fundamentarmos nosso trabalho para com nossos alunos e sejamos exemplo para os mesmos. Nos exorta a sermos uma árvore do conhecimento para o nosso aluno, principalmente nos trabalhos iniciais quando este chega buscando uma referência. Nos conhecendo, acessamos melhor o corpo do outro e aos poucos vamos contribuindo para o encontro consigo mesmo. É óbvio que não existe uma receita pronta que conduza a nós mesmos e aos nossos alunos a acessar de prontidão a percepção do corpo no espaço/mundo. Nós como facilitadores de movimento, precisamos reconhecer nossos processos, acolher as nossas próprias angústias para então compreender e auxiliar o processo de cada aluno individualmente. Tal qual um cuidador que está presente quando um bebê se aventura em seus primeiros passos, nós facilitadores do movimento devemos acompanhar nossos alunos como guias, aguçando-lhes a curiosidade para com o próprio corpo, sempre os encorajando e transmitindo-lhes ânimo e confiança. Como pedagogos do movimento, precisamos ser auxiliadores daqueles que nos confiaram seus corpos no processo de sentir e perceber as sensações do mover o corpo no espaço/mundo. BERTHERAT Thérèse – O corpo tem suas razões – antiginástica e consciência de si. p.141 LELOUP – Jean Yves – O Corpo e seus símbolos. Uma antropologia essencial p.17 e 18 Texto de Constância Matos