Além das Partes: Uma Lente de Biotensegridade para Profissionais do Movimento

Tradução blog fascia hub
por Chris Morita Clancy e Bruna Petito

A fáscia é o tecido vivo e contínuo que nos molda, transmite forças e organiza nosso movimento. Ela é essencial para nossa totalidade. Podemos perceber isso quando voltamos nossa atenção para dentro e observamos o que acontece enquanto nos movemos.

Experimente pegar uma caneta que esteja um pouco fora do seu alcance. Ao se inclinar para frente, talvez você note o peso se deslocando, o corpo espiralando, o braço se alongando. Estamos carregando e enrolando nossas próprias molas internas. Assim que pegamos a caneta, podemos liberar e retornar sem esforço à posição original. Nosso corpo se autoajusta naturalmente enquanto atravessamos a distância sem pensamento consciente.

Como profissionais do movimento, sabemos que nossos clientes se movem naturalmente como um todo integrado. Ainda assim, pode ser desafiador nos afastarmos do modelo baseado em partes que aprendemos. Ao instruir clientes a “ativar o core”, deixamos de ampliar o olhar para o corpo como um todo. Ao orientar alguém a “contrair os glúteos”, podemos esquecer de convidar a pessoa a notar movimentos correspondentes nos pés, no rosto ou em outras regiões.

A cultura ocidental moderna nos ensina a ver o corpo como um prédio ou uma máquina. Aprendemos a pensar nas articulações como dobradiças e nos ossos como alavancas movidas pelos músculos. Aprendemos que a coluna é uma coluna estrutural que precisa ser reforçada pelo core para se manter segura e livre de dor. Esses modelos vão contra uma perspectiva holística e podem facilmente influenciar nossos pensamentos, palavras e ações.

Precisamos de uma lente atualizada que convide à curiosidade, a uma nova forma de ver e a novas possibilidades.

A biotensegridade nos oferece exatamente isso. Trata-se de uma ciência emergente que utiliza a tensegridade e outros modelos para criar uma estrutura conceitual radicalmente diferente para nossos corpos e toda a biologia, dos vírus aos vertebrados. Ela nos ajuda a entender o corpo humano como um todo integrado, autoestabilizante e responsivo, que se adapta e se reconfigura constantemente conforme necessário. A biotensegridade nos ajuda a compreender não apenas o “o quê” da estrutura, mas o “como” do movimento.

Podemos ter uma noção disso segurando e brincando com um icosaedro de tensegridade. As hastes e os fios se conectam em um padrão de laços, losangos e triângulos que criam volume mesmo sem as hastes se tocarem. Quando empurramos ou puxamos, os losangos se abrem e fecham como asas de borboleta, os triângulos espiralam, e todo o conjunto se condensa ou se expande em todas as direções. Há uma qualidade quase viva nisso, que pode transformar nossa compreensão das possibilidades de movimento.

Por exemplo, houve uma mulher que parecia fisicamente desconectada ao iniciar uma formação de professores. Mas, quando segurou uma estrutura de tensegridade nas mãos, ficou completamente absorvida por seu movimento oscilante. Suavemente e de forma rítmica, começou a pressionar e soltar, pressionar e soltar. “Como meu coração”, disse ela. “Como meus pulmões.”

Ao longo da formação, ela descobriu que o corpo inteiro ressoava com sua inspiração e expiração, até a superfície da pele. Percebeu regiões menos responsivas e constatou que, muitas vezes, apenas observando, algo mudava. Áreas de tensão se liberavam e entravam no ritmo da respiração. Ao final do treinamento, movia-se com mais confiança e presença. Mais tarde, disse que havia parado de tentar “corrigir” sua postura e, em vez disso, estava ouvindo o corpo “de dentro”. A tensão de fundo que carregara por anos começou a diminuir. Ela não estava mais controlando o corpo — estava vivenciando-o e confiando nele.

A experiência dela aponta para uma questão maior: e se abordássemos nosso trabalho pela lente da biotensegridade? Será que passaríamos a focar nas relações entre as partes do corpo, em vez das partes isoladas? Poderíamos encontrar novas ferramentas que ajudem nossos clientes a se mover naturalmente como um sistema integrado?

Referências

Adstrum, S., Hedley, G., Schleip, R., Stecco, C., & Yucesoy, C. A. (2017). Defining the fascial system. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 21(1), 173–177.

Scarr, G., Blyum, L., Levin, S. M., & Lowell de Solórzano, S. (2022). Moving beyond Vesalius: Why anatomy needs a mapping update. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 31, 60–67.

Scarr, G., Blyum, L., Levin, S. M., & Lowell de Solórzano, S. (2025). Biotensegrity is the super-stability hypothesis for biology. Biosystems, 256, 105569. https://doi.org/10.1016/j.biosystems.2025.105569

Levin, S. M., & Martin, D. C. (2012). Biotensegrity: The mechanics of fascia. In Fascia: The Tensional Network of the Human Body (pp. 137–142). Churchill Livingstone.

Chris Morita Clancy

Chris Morita Clancy é fundadora da Embodied Biotensegrity, uma plataforma de referência em educação sobre biotensegridade, que atende profissionais, educadores e pesquisadores em todo o mundo (embodiedbiotensegrity.ca). Ela é membro do conselho do Stephen M. Levin Biotensegrity Archive e integrante fundadora do Pacific Northwest Biotensegrity Interest Group (PNWBIG) e do BIG Portugal LIVE! É colaboradora dos livros Everything Moves: How Biotensegrity Informs Human Movement, de Susan Lowell de Solórzano (Handspring), e Spiral Bound, de Karen Kirkness (Handspring).

Ao lado de Graham Scarr e Susan Lowell de Solórzano, Chris coapresenta e produz o BiotensegriTea Party, uma série contínua que explora os avanços mais recentes em biotensegridade. Ela facilita formações e imersões focadas em biotensegridade no Canadá e em Portugal, além de ministrar workshops e apresentações em conferências, incluindo a ReVIEWING Black Mountain College Conference e o International Fascia Research Congress.

Bruna Petito

Sou pesquisadora, doutoranda em Ciências da Saúde e criadora do Método Inner Balance, uma abordagem somática desenvolvida para promover autonomia e organicidade. Meu trabalho combina comandos verbais que conectam o corpo como um sistema vivo com a revisão de hábitos, ajudando indivíduos a melhorar sua relação com o corpo e o movimento.

Como membro do conselho e professora de Biotensegridade Aplicada na Fisioterapia, auxilio fisioterapeutas a compreenderem seu trabalho através da lente da biotensegridade. Colaboro ativamente com grupos nacionais e internacionais para construir pontes de estudo sobre fáscia, biotensegridade e o Método Inner Balance.

O Método Inner Balance está em constante evolução e já formou centenas de instrutores no Brasil, França, EUA, Alemanha, Portugal, Itália, Espanha e Argentina. Minha missão é expandir essa abordagem inovadora, promovendo conexões mais profundas entre ciência e aplicação prática nas áreas da saúde e da somática.

Para estudar de forma gratutia https://sutra.co/space/arisha16/content 

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